POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


EM CHAMAS

 

Ardeu Tróia sob o peso dos deuses e dos homens,

e nas cinzas das muralhas gravaram-se nomes esquecidos.

Cartago foi sal e silêncio,

onde o fogo não matou apenas a cidade,

mas também a esperança de memória.

Roma, senhora do mundo, caiu em labaredas,

templos a ruir como deuses sem culto,

e o Tibre levou consigo as chamas

que ainda hoje brilham nas crónicas dos vencidos.

Constantinopla, joia do Oriente,

caiu sob o estrondo das muralhas partidas,

e as cúpulas douradas foram tingidas de sangue,

para que o império terminasse em fogo

e começasse em sombra.

Lisboa tremeu, Lisboa ardeu,

o mar devolveu o grito das pedras quebradas,

e entre as ruínas ergueu-se uma cidade feita de lágrimas

— a fénix das margens do Tejo.

Moscovo incendiou-se para não ser escrava,

ardeu para negar a vitória ao invasor,

e na noite gelada o fogo era também liberdade.

Dresden, ó flor da arte,

em ti a beleza foi queimada até ao osso,

as catedrais dissolvidas em pó incandescente,

e o céu cobriu-se de luto humano.

Hiroshima não foi chama,

foi sol de morte,

um relâmpago que roubou séculos em segundos,

e ainda hoje a terra murmura cinzas radioativas.

E Gaza, ó Gaza,

arde todos os dias sem tréguas,

sob o peso de bombas, sob o grito de crianças,

e cada pedra caída é um coração que se cala.

Alepo, irmã em ruína,

os teus minaretes chamam apenas o vento,

e o deserto guarda o eco de ruas despovoadas.

E tantas vilas sem nome,

perdidas na poeira da História,

ardeu nelas a mesma chama,

porque o fogo não escolhe nomes —

é destino repetido, cicatriz universal.

E contudo, nas cinzas, germina sempre o grão,

a vida insiste em florir sobre a terra queimada.

Pois o fogo, mesmo em sua fúria,

não apaga a memória dos homens,

nem cala a poesia que se ergue das ruínas.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 17/09/2025


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