

ORELHA — RÉQUIEM PARA A INOCÊNCIA ( Uma Reflexão)Orelha não conhecia o ódio. Conhecia o chão, o cheiro do mundo, a mão que afaga e o silêncio bom da tarde. Era só um cão. E ser “só” já deveria bastar para merecer vida. Mas vieram eles — filhos do excesso, herdeiros do conforto, educados em colégios caros onde se ensina latim, mas não se ensina compaixão. Tinham livros, tinham viagens, tinham futuro garantido antes mesmo de escolher quem ser. Tinham tudo. E ainda assim, faltava-lhes o essencial. A violência não nasceu da fome, nem da miséria, nem da ausência de oportunidades. Nasceu do vazio moral, do prazer covarde de ferir quem não reage, de matar quem não acusa. Orelha não entendeu os golpes. Seu corpo pequeno aprendeu, à força, o que é a brutalidade humana. Cada pancada era uma aula invertida: onde o saber falhou, a crueldade passou. E enquanto o cão morria, morria junto uma pergunta antiga: de que vale uma educação que não forma humanidade? De que vale o privilégio quando ele se converte em arma? Orelha morreu sem saber que seus algozes tinham nome, sobrenome, currículo, e portas abertas para o amanhã. Ele morreu sabendo apenas que o mundo, às vezes, é injustamente cruel. Mas sua morte grita. Late na consciência. Arranha a história. Porque quando um animal dócil é morto por diversão, não é só um cão que cai — é a ética, é a civilização, é o disfarce civil do bárbaro. Orelha partiu. E deixou exposto que há quem tenha tudo e ainda assim não tenha alma. Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 31/01/2026
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