POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


LEVIATÃ

Não veio do mar.

Veio das mãos humanas.

Nasceu quando o medo

pediu proteção

e entregou a própria liberdade

como pagamento.

Leviatã não tem escamas —

tem carimbos,

protocolos,

portas giratórias

e corredores sem fim.

É o Estado quando esquece

que foi criado para servir

e aprende a gostar

de ser temido.

É a lei quando vira labirinto.

É a ordem quando perde o rosto.

É a segurança quando começa

a vigiar pensamentos.

Leviatã mora nos prédios altos,

mas também nas telas pequenas.

Hoje ele não ruge —

ele notifica.

Conta passos,

mede palavras,

arquiva preferências,

prevê desejos.

O Leviatã digital

não usa correntes:

usa algoritmos.

Na escola,

é o ensino que forma currículos

e esquece de formar consciências.

Na economia,

é o mercado que transforma gente

em estatística de consumo.

Na política,

é o discurso que promete igualdade

enquanto treina o medo.

Na religião,

é a fé quando vira instrumento

de controle moral.

Na sociedade,

é o costume que silencia

quem ousa ser diferente.

Leviatã não grita.

Ele normaliza.

Faz parecer natural

o que deveria ser questionado.

E quando percebemos,

já estamos falando baixo,

andando reto,

pensando pouco.

Mas o mais assustador

é que o Leviatã

não vive apenas fora.

Ele aprende a morar dentro.

Quando deixamos de questionar.

Quando obedecemos sem pensar.

Quando preferimos conforto

à liberdade.

O Leviatã cresce

toda vez que o ser humano

aceita ser reduzido.

Porque o monstro verdadeiro

não é o poder absoluto —

é a desistência silenciosa

de quem poderia resistir.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 06/02/2026


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