POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


ACINTE DEBOCHE, AFRONTA, ESCÁRNIO

Há algo estranho acontecendo nas praças digitais.

Enquanto muitos contam moedas

Para comprar o pão da manhã

Outros contam milhões

Diante das câmeras.

Enquanto mães atravessam madrugadas

Em filas de hospitais cansados

Enquanto escolas sobrevivem

Com paredes fatigadas pelo abandono

Surge mais um vídeo.

Mais uma mansão.

Mais um automóvel

Que vale bairros inteiros.

Mais uma festa

Onde o desperdício desfila

Como se fosse virtude.

E os algoritmos aplaudem.

Transformaram a ostentação

Numa religião moderna.

Os seguidores assistem.

Os patrocinadores celebram.

E a consciência adormece.

Há influenciadores

Que influenciam pouco

E exibem muito.

Exibem relógios

Que custam sonhos.

Exibem bolsas

Que custam salários.

Exibem viagens

Que custam vidas inteiras de trabalho.

E chamam isso de sucesso.

Mas sucesso para quem?

De onde veio tanto ouro?

De onde vieram tantos palácios?

De onde nasceram tantas fortunas

Que florescem da noite para o dia

Como árvores mágicas

Num deserto de explicações?

O povo observa.

Observa políticos enriquecendo.

Observa empresários multiplicando cifras.

Observa esquemas surgindo

Como ervas daninhas

Nos jardins da República.

Observa investigações.

Operações.

Denúncias.

Escândalos.

E depois...

Silêncio.

O silêncio conveniente

Que tantas vezes absolve

Aquilo que deveria indignar.

Existe um deboche invisível

Caminhando entre nós.

Um deboche vestido de luxo.

Um deboche perfumado.

Um deboche fotografado

Em iates e jatinhos.

Como se dissesse:

"Olhem o que tenho."

"Olhem o que posso."

"Olhem como sou intocável."

E talvez seja justamente isso

Que mais fere.

Não é apenas a riqueza.

Não é apenas a ostentação.

É o acinte.

É a afronta.

É a exibição da desigualdade

Como espetáculo.

Enquanto milhões lutam

Para sobreviver ao mês.

Enquanto aposentados contam centavos.

Enquanto trabalhadores atravessam cidades

Em ônibus lotados.

Enquanto famílias inteiras

Aprendem a fazer milagres

Com salários insuficientes.

Vivemos tempos curiosos.

A honestidade tornou-se silenciosa.

A ética tornou-se discreta.

Mas a ostentação tornou-se estridente.

E grita.

Grita em vídeos.

Grita em fotos.

Grita em mansões.

Grita em carros milionários.

Grita em festas faraônicas.

Talvez a grande corrupção

Não seja apenas a dos cofres.

Talvez exista outra.

Mais profunda.

Mais perigosa.

A corrupção dos valores.

A ideia de que valer

É possuir.

A crença de que ser admirado

É acumular.

A ilusão de que riqueza

É sinônimo de grandeza.

Mas o tempo...

Esse velho juiz silencioso...

Continua observando.

Porque carros enferrujam.

Palácios desmoronam.

Fortunas evaporam.

Seguidores desaparecem.

E resta apenas a pergunta

Que atravessa os séculos:

O que você construiu

Além da própria aparência?

O que deixou

Além das fotografias?

O que permaneceu

Além da ostentação?

Pois há riquezas

Que não cabem em cofres.

E há pobrezas

Que nem bilhões conseguem esconder.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 06/06/2026


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