POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


NOS DEIXAMOS SER INVADIDOS ( Zumbis de luz)

Invadiram nossas casas.

Não arrombaram portas.

Não quebraram janelas.

Chegaram silenciosamente,

envoltos em promessas de conexão,

entretenimento,

conhecimento

e pertencimento.

E nós os recebemos.

Sentamos à mesa com eles.

Dormimos ao lado deles.

Acordamos procurando-os.

E pouco a pouco

nos deixamos invadir.

As telas passaram a ocupar

os espaços vazios da alma.

Os algoritmos aprenderam

nossos desejos,

nossos medos,

nossas fraquezas,

nossas carências.

Conhecem-nos,

por vezes,

mais do que nós mesmos.

E nos oferecem,

a cada instante,

uma nova distração.

Um novo vídeo.

Uma nova polêmica.

Uma nova indignação.

Um novo consumo.

Um novo esquecimento.

Tudo rápido.

Tudo imediato.

Tudo efêmero.

Como gotas de açúcar

sobre uma mente cansada.

Como pequenas doses

de prazer instantâneo.

Como um narcótico invisível

que não paralisa o corpo,

mas adormece a consciência.

E seguimos deslizando os dedos.

Deslizando.

Deslizando.

Como peregrinos sem destino

percorrendo corredores infinitos

de imagens,

sons,

opiniões

e anúncios.

Já não contemplamos o pôr do sol.

Nós o fotografamos.

Já não ouvimos o vento.

Nós o transformamos em conteúdo.

Já não vivemos o instante.

Nós o publicamos.

E nessa travessia,

o silêncio tornou-se raro.

A reflexão tornou-se incômoda.

A espera tornou-se insuportável.

O pensamento profundo

parece lento demais

para uma civilização

viciada em velocidade.

As fake news

caminham entre nós

vestidas de verdade.

Alimentam preconceitos.

Multiplicam medos.

Transformam boatos

em certezas.

E encontram terreno fértil

em mentes apressadas,

que compartilham

antes de compreender,

que reagem

antes de pensar.

Então surgem os zumbis.

Não aqueles das histórias.

Mas os de carne e osso.

Os que caminham olhando para baixo.

Os que atravessam a vida

sem realmente vê-la.

Os que sabem muito

sobre escândalos distantes,

mas quase nada

sobre si mesmos.

Os que acumulam informações

como quem coleciona pedras,

sem jamais transformá-las

em sabedoria.

Como observava Hermann Hesse,

a verdadeira jornada

não acontece para fora,

mas para dentro.

Entretanto,

tememos o interior.

Tememos o encontro

com nossas perguntas.

Tememos o silêncio

porque nele habitam

as inquietações

que nenhuma tela consegue calar.

E assim seguimos,

cercados por luzes,

mas muitas vezes

afastados da iluminação.

Conectados a tudo,

mas desconectados

do essencial.

Falando sem cessar,

mas esquecendo de ouvir.

Consumindo informações,

mas negligenciando o conhecimento.

A tecnologia não é a inimiga.

O perigo está

na entrega absoluta.

Na renúncia voluntária

da autonomia.

Na troca da reflexão

pela reação.

Da profundidade

pela superficialidade.

Da consciência

pela distração permanente.

Talvez ainda haja tempo.

Tempo para fechar a tela

e abrir um livro.

Para abandonar o ruído

e reencontrar o silêncio.

Para trocar a avalanche

de informações

pela serenidade da contemplação.

Para voltar a olhar

as árvores,

os rios,

as estrelas,

os rostos humanos.

Porque a liberdade

não morre apenas

quando alguém nos cala.

Ela também enfraquece

quando deixamos de pensar.

E a humanidade

não será salva

pela velocidade dos algoritmos,

mas pela coragem

de permanecer consciente

em um mundo

que insiste em nos transformar

em zumbis de luz.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 03/07/2026


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