POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


PENDURICALHOS E PRIVILÉGIOS

Enquanto o povo conta moedas

para comprar o pão de amanhã,

há palácios onde os salários

nunca caminham sozinhos.

Vêm adornados.

Vestem-se de gratificações,

auxílios, bônus,

vantagens, benefícios,

nomes elegantes

para velhos privilégios.

Pendem dos contracheques

como frutos dourados

de uma árvore plantada

com o suor de milhões.

Nas filas dos hospitais,

uma mãe espera.

Nas escolas,

o teto goteja.

Nas ruas,

o trabalhador desperta antes do sol

e regressa quando a lua

já tomou posse do céu.

Mas, nos gabinetes,

multiplicam-se os penduricalhos.

São apêndices do poder,

raízes profundas

de uma cultura antiga,

onde alguns poucos

habitam a fartura

enquanto muitos sobrevivem

na estreita fronteira

entre o sonho e a necessidade.

Chamam de legalidade.

Chamam de direito adquirido.

Chamam de verba,

de indenização,

de excepcionalidade.

Mas o povo,

esse sábio observador da história,

chama pelo nome que conhece:

Privilégio.

E cada privilégio excessivo

é uma pedra lançada

contra a esperança coletiva.

Cada benefício desmedido

é uma ferida aberta

na confiança da República.

Pois a democracia

não floresce apenas nas urnas.

Ela floresce

quando o exemplo vem de cima,

quando a ética supera a conveniência,

quando o interesse público

vence o apetite privado.

A República não deveria usar joias

enquanto seus filhos

carecem do essencial.

Não deveria colecionar adornos

quando faltam remédios,

livros,

segurança

e dignidade.

Os penduricalhos,

mais do que cifras,

são símbolos.

E os símbolos falam.

Falam de distâncias.

Falam de desigualdades.

Falam de um país

que ainda busca reconciliar

o discurso da justiça

com a prática da equidade.

Talvez chegue o dia

em que o serviço público

não seja lembrado

pelos excessos que acumula,

mas pela grandeza que entrega.

E então,

os únicos penduricalhos da República

serão a honra,

a transparência

e o compromisso

com aqueles que sustentam,

com seus impostos e esperanças,

o peso inteiro da nação.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 07/07/2026


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras