

PENDURICALHOS E PRIVILÉGIOSEnquanto o povo conta moedas para comprar o pão de amanhã, há palácios onde os salários nunca caminham sozinhos. Vêm adornados. Vestem-se de gratificações, auxílios, bônus, vantagens, benefícios, nomes elegantes para velhos privilégios. Pendem dos contracheques como frutos dourados de uma árvore plantada com o suor de milhões. Nas filas dos hospitais, uma mãe espera. Nas escolas, o teto goteja. Nas ruas, o trabalhador desperta antes do sol e regressa quando a lua já tomou posse do céu. Mas, nos gabinetes, multiplicam-se os penduricalhos. São apêndices do poder, raízes profundas de uma cultura antiga, onde alguns poucos habitam a fartura enquanto muitos sobrevivem na estreita fronteira entre o sonho e a necessidade. Chamam de legalidade. Chamam de direito adquirido. Chamam de verba, de indenização, de excepcionalidade. Mas o povo, esse sábio observador da história, chama pelo nome que conhece: Privilégio. E cada privilégio excessivo é uma pedra lançada contra a esperança coletiva. Cada benefício desmedido é uma ferida aberta na confiança da República. Pois a democracia não floresce apenas nas urnas. Ela floresce quando o exemplo vem de cima, quando a ética supera a conveniência, quando o interesse público vence o apetite privado. A República não deveria usar joias enquanto seus filhos carecem do essencial. Não deveria colecionar adornos quando faltam remédios, livros, segurança e dignidade. Os penduricalhos, mais do que cifras, são símbolos. E os símbolos falam. Falam de distâncias. Falam de desigualdades. Falam de um país que ainda busca reconciliar o discurso da justiça com a prática da equidade. Talvez chegue o dia em que o serviço público não seja lembrado pelos excessos que acumula, mas pela grandeza que entrega. E então, os únicos penduricalhos da República serão a honra, a transparência e o compromisso com aqueles que sustentam, com seus impostos e esperanças, o peso inteiro da nação. Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 07/07/2026
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