POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


Há um lugar

onde o amanhecer não traz esperança.

Há um lugar

onde os pássaros parecem esquecer o canto

e o vento carrega apenas

o peso dos gritos sufocados.

Chamam-no Campo 14.

Mas campo não é.

Campos deveriam florescer trigo,

acolher sementes,

alimentar vidas.

Ali,

cultivam-se o medo,

a vigilância,

a fome

e o silêncio.

Ali,

a suspeita vale mais que a verdade.

Uma palavra dita,

um pensamento sussurrado,

um gesto considerado impróprio,

podem transformar uma existência inteira

em sentença sem fim.

Homens,

mulheres,

idosos,

crianças,

todos reduzidos

a números,

sombras,

engrenagens descartáveis

de uma máquina impiedosa.

Ali,

o trabalho não é dignidade.

É castigo.

O suor não constrói futuros.

Constrói muros invisíveis

ao redor da alma.

Ali,

a fome não é acidente.

É instrumento.

A dor não é consequência.

É método.

O medo não é acaso.

É governo.

E a noite,

essa velha companheira dos sonhos,

transforma-se em morada dos pesadelos.

Quantos olhos já choraram

sem que ninguém pudesse enxugar suas lágrimas?

Quantas vozes foram enterradas

antes mesmo de serem ouvidas?

Quantas infâncias foram roubadas

antes de aprenderem o significado da liberdade?

Campo 14.

Símbolo de uma ferida

aberta na consciência humana.

Monumento sombrio

àquilo que acontece

quando o poder esquece a compaixão

e transforma seres humanos

em objetos de controle.

Nenhuma ideologia,

nenhuma bandeira,

nenhum governante,

nenhum discurso,

vale uma única vida humana.

Nenhum Estado

possui o direito

de aprisionar a esperança.

Nenhuma autoridade

pode reivindicar

a posse dos sonhos de um povo.

Por isso escrevo.

Porque o silêncio

é o alimento dos tiranos.

Porque a palavra

é a trincheira dos livres.

Porque a poesia

não aceita correntes.

Que estes versos atravessem cercas,

torres,

muros,

fronteiras.

Que atravessem o medo.

Que atravessem a mentira.

E que proclamem,

a cada ser humano da Terra:

Nenhum cárcere é eterno.

Nenhuma tirania é invencível.

Nenhuma escuridão

consegue aprisionar para sempre

a luz.

E que um dia,

onde hoje existem grades,

surjam árvores.

Onde hoje existem gritos,

surjam canções.

Onde hoje existe medo,

surja a liberdade.

Pois toda humanidade é diminuída

quando um único homem é acorrentado.

E toda humanidade se eleva

quando uma única alma

volta a respirar

o ar da liberdade.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 17/07/2026


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