

O HOMEM DOS PANOSHá um homem que encontro quase todos os dias. Não sei seu nome. A cidade também parece não saber. Ele surge entre os carros quando o trânsito se transforma em espera. Surge nos engarrafamentos, nos horários de pico, nos momentos em que a pressa é obrigada a parar. Carrega panos de prato. Carrega panos de chão. Carrega uma sacola, alguns sonhos e uma resistência que poucos percebem. Enquanto os motoristas observam o relógio, o celular ou o semáforo, ele observa oportunidades. O congestionamento, que para muitos é um tormento, para ele é local de trabalho. Seu escritório é o asfalto. Sua vitrine são os vidros dos carros. Seu expediente é o movimento da cidade. E eu me pergunto: Quem é ele? Qual é o seu nome? Onde mora quando o dia termina e a noite recolhe os ruídos das avenidas? Tem filhos? Tem netos? Alguém o espera para o jantar? Quanto consegue vender em um dia bom? E em um dia ruim? Como está sua saúde? As pernas doem? A coluna reclama? Os pés suportam tantas horas caminhando sob o calor escaldante do verão e sob as chuvas repentinas do inverno? Porque ele está lá. Faça sol. Faça chuva. Faça calor. Faça frio. Ele está lá. Caminhando entre os carros como uma personagem permanente da paisagem urbana. Outro dia comprei um pano dele. Paguei pelo Pix. Enquanto procurava o celular e concluía a transferência, as buzinas começaram a soar atrás de mim. Implacáveis. Ansiosas. Como se alguns segundos fossem mais importantes do que a dignidade de um trabalhador. O sinal havia aberto. A cidade exigia velocidade. Mas eu queria permanecer ali mais um instante. Não para comprar um pano. Para comprar uma história. Para descobrir quem era aquele homem. Para saber de onde vinha e para onde voltava. Mas o trânsito seguiu. Os carros avançaram. E ele permaneceu para trás, caminhando em direção a outros vidros fechados. Penso nele às vezes na hora do almoço. Onde almoça? Será que leva uma marmita? Será que encontra um restaurante popular? Será que, em alguns dias, vende primeiro para poder comer depois? Ninguém pergunta. Ninguém sabe. A cidade passa por ele todos os dias, mas raramente o enxerga. É curioso como os invisíveis sustentam partes inteiras do mundo. Os garis. Os ambulantes. Os carregadores. Os vendedores dos sinais. Homens e mulheres que habitam nossos trajetos sem habitar nossas conversas. Sabemos o nome das ruas. Sabemos o nome dos aplicativos. Sabemos o nome dos influenciadores. Mas não sabemos o nome daqueles que cruzam nossa vida diariamente Talvez o homem dos panos seja apenas um trabalhador tentando sobreviver. Talvez seja pai. Talvez seja avô. Talvez cuide de alguém doente. Talvez carregue preocupações que não cabem na sacola que leva consigo. Talvez tenha histórias que dariam um livro inteiro. Mas a cidade não costuma ouvir histórias. A cidade costuma buzinar. E assim ele segue. Entre carros, fumaça, semáforos e pressa. Caminhando de janela em janela. De olhar em olhar. De silêncio em silêncio. Um homem comum. Um trabalhador comum. Um brasileiro comum. Mais um dos tantos invisíveis que sustentam o cotidiano enquanto o mundo finge não vê-los. E todas as vezes que o encontro, volto a fazer a mesma pergunta: Quem é ele? Talvez a resposta não esteja apenas nele. Talvez esteja em nós. Naquilo que escolhemos enxergar. Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 17/07/2026
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