POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


O JARDIM DAS AUSÊNCIAS

Chega uma idade da vida em que começamos a colecionar ausências.

Quando somos jovens, acreditamos que as pessoas serão eternas.

Imaginamos que nossos pais estarão sempre sentados no mesmo lugar da sala.

Que os amigos continuarão aparecendo aos domingos.

Que os irmãos permanecerão por perto.

Que as vozes que embalaram nossa infância jamais se calarão.

Mas o tempo, esse escultor invisível, trabalha silenciosamente.

Dia após dia.

Ano após ano.

E, sem pedir licença, começa a levar aqueles que amamos.

Primeiro partem os avós.

Depois alguns tios.

Um amigo de infância.

Um vizinho querido.

Um professor inesquecível.

Às vezes um irmão.

Às vezes a própria mãe.

Às vezes o pai.

E então compreendemos que a existência também é feita de despedidas.

Há uma cadeira vazia na mesa.

Há um quarto silencioso.

Há um número de telefone que já não atende.

Há fotografias que se transformam em portais para um mundo que não existe mais.

E, mesmo assim, eles continuam presentes.

Porque existem pessoas que a morte não consegue levar.

Leva o corpo.

Leva a voz.

Leva a presença física.

Mas não consegue arrancar aquilo que ficou gravado na alma.

Às vezes estou caminhando por uma rua qualquer e uma canção antiga escapa pela janela de um carro.

Então tudo retorna.

Não a pessoa.

Mas a sua luz.

O seu jeito de sorrir.

A maneira como pronunciava determinadas palavras.

As histórias que contava.

As gargalhadas que enchiam os ambientes.

E durante alguns segundos ela volta a existir dentro de mim.

Outras vezes é um livro.

Abro uma página ao acaso.

Leio uma frase.

E imediatamente me lembro de alguém.

Porque há pessoas que se tornam capítulos da nossa própria história.

Misturam-se às nossas páginas.

Passam a morar entre nossas lembranças.

Existem também as paisagens.

Ah, as paisagens...

Uma praia ao entardecer.

Uma estrada cercada de árvores.

Uma montanha perdida entre nuvens.

Uma praça iluminada pela chuva.

Um banco vazio observando o movimento do mundo.

E o coração sussurra:

"Ele deveria estar aqui."

"Ela gostaria de ver isso."

"Como seria bom compartilhar este instante."

Mas já não podemos.

E é nesse momento que a saudade revela sua face mais profunda.

Não sentimos falta apenas das pessoas.

Sentimos falta dos futuros que imaginávamos viver ao lado delas.

Dos aniversários que não aconteceram.

Das viagens que ficaram por fazer.

Das conversas interrompidas pelo destino.

Dos abraços que não puderam ser dados.

Dos "eu te amo" que ficaram presos na garganta.

Por isso a perda nos torna órfãos.

Não importa a idade.

Podemos ter sessenta, setenta ou oitenta anos.

Quando alguém amado parte, uma parte da nossa infância parte junto.

Uma parte da nossa história perde uma de suas testemunhas.

Uma parte do nosso mundo fica menos iluminada.

E então caminhamos.

Carregando ausências.

Carregando fotografias invisíveis.

Carregando vozes que apenas o coração consegue ouvir.

Às vezes penso que a vida se parece com uma grande biblioteca.

Cada pessoa que encontramos escreve algumas páginas dentro de nós.

Algumas escrevem capítulos inteiros.

Outras escrevem livros completos.

Quando partem, não levam essas páginas consigo.

Elas permanecem.

Guardadas.

Vivas.

Respirando entre as memórias.

Talvez seja por isso que certas músicas nos façam chorar.

Talvez seja por isso que determinados lugares nos silenciem.

Talvez seja por isso que algumas tardes pareçam habitadas por fantasmas luminosos.

Não fantasmas de medo.

Mas fantasmas de amor.

Presenças invisíveis que continuam caminhando ao nosso lado.

Lembro-me de uma frase atribuída a um pensador que dizia que a vida está situada entre duas escuridões.

Antes do nascimento.

Depois da morte.

Duas margens desconhecidas.

E entre elas corre este rio breve chamado existência.

Um rio de encontros.

De despedidas.

De alegrias.

De dores.

De chegadas.

De partidas.

E talvez o maior desafio humano seja exatamente este:

fazer valer o intervalo.

Transformar o breve em significativo.

Transformar os dias em algo que mereça ser lembrado.

Porque um dia nós também seremos memória.

Também habitaremos fotografias.

Também viveremos dentro das histórias contadas por quem ficou.

Também seremos a saudade de alguém.

Por isso precisamos aprender a brilhar.

Mesmo quando a tristeza nos visita.

Mesmo quando a saudade aperta.

Mesmo quando os olhos se enchem de lágrimas.

Precisamos aprender a fazer do amor uma continuidade.

A continuar oferecendo ao mundo aquilo que recebemos daqueles que já partiram.

A espalhar a bondade que nos ensinaram.

A repetir os gestos que nos marcaram.

A cultivar os sonhos que deixaram como herança.

Talvez seja essa a verdadeira eternidade.

Não viver para sempre.

Mas permanecer vivo naquilo que inspiramos nos outros.

E assim seguimos.

Com nossas cicatrizes.

Com nossas lembranças.

Com nossos silêncios.

Com nossas saudades.

Seguindo pelas estradas do tempo.

Olhando para o céu.

Reconhecendo estrelas que os olhos não veem, mas que a alma conhece.

Porque os que amamos nunca desaparecem completamente.

Transformam-se em luz.

Uma luz discreta.

Uma luz serena.

Uma luz que habita o coração.

E enquanto estivermos caminhando entre as duas escuridões da existência, teremos uma missão:

honrar essa luz.

Fazer dela um farol.

Fazer dela poesia.

Fazer dela amor.

E fazer dela motivo para continuar.

Dia após dia.

Amanhecer após amanhecer.

Até que nossa própria chama se una, um dia, ao grande mistério que ilumina todas as coisas.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 19/07/2026


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras