POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


TORTURA: QUANDO O MEDO VIRA GOVERNO

Há uma tortura

que não precisa de gritos.

Basta uma porta fechada.

Um olhar vigiado.

Uma palavra

retirada da boca

antes mesmo de ser pronunciada.

Há torturas

que não deixam sangue

sobre o chão.

Deixam silêncio.

E o silêncio

também pode ser

uma cicatriz.

Há homens

que governam países

como quem possui

a própria verdade.

E acreditam

que uma cadeira de poder

pode lhes dar

o direito de decidir

quem pode falar,

quem pode pensar,

quem pode existir.

Esquecem,

ou fingem esquecer,

que nenhum trono

é maior que um ser humano.

Que nenhuma bandeira

é maior que a dignidade.

Que nenhuma autoridade

deveria ser maior

que a liberdade.

Mas o autocrata

tem medo.

Tem medo

do pensamento.

Tem medo

da pergunta.

Tem medo

do poeta

que escreve aquilo

que muitos sentem

e poucos conseguem dizer.

Por isso censura.

Por isso vigia.

Por isso prende.

Por isso transforma

a diferença

em ameaça.

E pouco a pouco

vai construindo

uma prisão sem muros.

Uma prisão

onde o cidadão aprende

a pensar duas vezes

antes de pensar.

A falar baixo

antes de falar.

A olhar para trás

antes de caminhar.

E talvez essa seja

uma das formas

mais cruéis de tortura:

ensinar alguém

a ter medo

da própria liberdade.

Há torturas

nas salas escondidas.

Há torturas

nos corredores das prisões.

Há torturas

nos desaparecimentos

que deixam famílias

conversando com fotografias.

Mas há também

a tortura cotidiana

de quem precisa

esconder aquilo que pensa

para continuar vivo.

Uma mãe espera.

Um filho desaparece.

Um escritor rasga

a página.

Um jornalista cala

a notícia.

Um estudante aprende

que certas perguntas

podem custar caro.

E uma sociedade inteira

vai descobrindo

que o medo

também pode ser

uma forma de governo.

Mas há algo

que o poder absoluto

nunca consegue prender:

a consciência.

Pode prender o corpo.

Pode quebrar a porta.

Pode confiscar o livro.

Pode apagar o nome.

Pode destruir a estátua.

Pode proibir a palavra.

Mas existe dentro do homem

um território

onde nenhum tirano

consegue entrar.

É ali

que a liberdade permanece.

Pequena.

Quase invisível.

Como uma chama

guardada pelas mãos

durante uma tempestade.

E talvez seja por isso

que os tiranos

tenham tanto medo

dos poetas.

Porque o poeta

não precisa de armas.

Precisa apenas

de uma palavra.

Uma palavra

pode atravessar uma cela.

Uma frase

pode sobreviver ao cárcere.

Um poema

pode atravessar décadas

e encontrar,

muito depois,

alguém disposto

a continuar a luta.

O poder passa.

Os homens passam.

Os governos passam.

Os impérios passam.

Mas a memória

permanece.

E um dia

a história pergunta:

O que vocês fizeram

quando o medo

se tornou lei?

E talvez ninguém consiga

responder por todos.

Mas cada um

terá que responder

por si.

Porque diante da tortura

o silêncio nunca é

apenas silêncio.

Às vezes

é cumplicidade.

Às vezes

é medo.

Às vezes

é sobrevivência.

Mas quando a voz

encontra outra voz,

quando a memória

encontra outra memória,

quando um homem

descobre que não está sozinho,

o medo começa

a perder seu império.

E então,

no lugar onde

o tirano imaginava

ter construído

uma eternidade,

nasce uma pequena palavra.

Depois outra.

E outra.

Até que milhões

voltem a pronunciá-la.

LIBERDADE.

E nenhuma prisão

é suficientemente grande

para aprisionar

uma palavra

que decidiu

ser eterna.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 11/08/2026


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