POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


MASTER, MAIS QUE VERGONHA

Há dias

em que a notícia

não informa.

Fere.

Há dias

em que o jornal

não conta uma história.

Expõe uma ferida.

E há dias

em que o cidadão

olha para o poder

e pergunta:

Onde foi parar a vergonha?

Que país é este

onde bilhões

desfilam em corredores fechados,

onde o dinheiro parece conhecer

atalhos que o povo desconhece,

onde portas se abrem

para alguns

enquanto tantas outras

permanecem eternamente fechadas?

Master...

Nome que poderia significar

excelência,

domínio,

competência.

Mas que hoje ecoa

na perplexidade de uma nação

que assiste, atônita,

a uma teia de relações,

interesses,

suspeitas

e poderes entrelaçados.

E o povo pergunta:

Quem vigia quem?

Quem fiscaliza

o fiscal?

Quem investiga

o investigador?

Quem julga

os que parecem

tão próximos do poder?

Quem protege

o dinheiro público

quando aqueles que deveriam

protegê-lo

aparecem nas margens

das mesmas histórias?

Não acuso.

Pergunto.

Não condeno.

Exijo respostas.

Porque numa República

a dúvida também precisa

ser investigada.

E a transparência

não pode ser favor.

É obrigação.

O que assusta

não é apenas o tamanho

dos números.

É a sensação

de que existem mundos

que não se encontram:

De um lado,

o trabalhador

contando moedas

antes do fim do mês.

Do outro,

bilhões circulando

entre bancos, fundos,

gabinetes, escritórios

e salões de influência.

De um lado,

a fila.

Do outro,

a porta lateral.

De um lado,

o cidadão esperando

por justiça.

Do outro,

a justiça tentando

descobrir

quem realmente

tem poder sobre quem.

Que ironia!

O dinheiro deveria

servir à sociedade.

Mas quando a sociedade

passa a servir

aos interesses do dinheiro,

alguma coisa essencial

se rompe.

Rompe-se a confiança.

Rompe-se a esperança.

Rompe-se o pacto

entre governantes

e governados.

E nasce

a indignação.

Uma indignação

que não é de esquerda

nem de direita.

É de quem ainda acredita

que o dinheiro público

tem dono:

o povo.

Que o cargo público

não é propriedade.

Que o mandato

não é herança.

Que a toga

não é escudo.

Que o gabinete

não é balcão de negócios.

Que a influência

não pode ser moeda.

Que amizade

não pode substituir

a impessoalidade.

Que poder

sem transparência

é terreno fértil

para o abuso.

E quando surgem

tantos nomes,

tantas versões,

tantas conexões,

tantas perguntas,

o cidadão contempla

o espetáculo

com uma mistura

de horror e tristeza.

Não pelo poder.

Mas pelo possível

desvio do sentido

do poder.

Porque poder

deveria significar

responsabilidade.

E não privilégio.

Deveria significar

serviço.

E não vantagem.

Deveria significar

ética.

E não esperteza.

Deveria significar

República.

E não República de poucos.

Ah, Brasil!

País das contradições...

Onde se pede sacrifício

ao pobre

enquanto alguns

parecem viver

acima das regras

que valem para todos.

Onde a lei

deveria ser cega,

mas o cidadão

tem medo de que ela

enxergue diferente

dependendo de quem

esteja diante dela.

Isso é o que dói.

Isso é o que revolta.

Isso é o que causa

perplexidade.

Isso é o que envergonha.

Não porque toda suspeita

seja culpa.

Mas porque toda suspeita

que envolve o poder

precisa de luz.

Muita luz.

A luz dos documentos.

A luz das investigações.

A luz do contraditório.

A luz da Justiça.

A luz da imprensa livre.

A luz da sociedade.

Porque a democracia

não sobrevive

no escuro.

E quando bilhões

desaparecem em labirintos

de contratos, fundos,

interesses e influências,

não basta dizer:

“Confie.”

A República precisa dizer:

“Veja.”

Mostre.

Explique.

Investigue.

Responsabilize,

se houver crime.

Absolva,

se não houver.

Mas não esconda.

Não silencie.

Não transforme

o cidadão

em espectador

de uma peça

cujo roteiro

ele jamais poderá ler.

Porque o maior escândalo

talvez não seja

apenas o dinheiro.

Talvez seja

a possibilidade

de termos chegado

a um ponto

em que o poder

parece esquecer

para quem existe.

E quando isso acontece,

o silêncio

deixa de ser prudência.

Pode tornar-se cumplicidade.

Por isso escrevo.

Não para condenar pessoas.

Escrevo para condenar

a corrupção,

o privilégio,

o tráfico de influência,

o desmando,

a opacidade,

a impunidade

e a velha doença

que atravessa governos,

partidos, instituições

e gerações:

a ideia de que o poder

pode tudo.

Não!

O poder não pode tudo.

O poder pertence

à República.

A República pertence

ao povo.

E o povo...

ainda está olhando.

Ainda pergunta.

Ainda se indigna.

Ainda se envergonha.

Ainda espera.

E, sobretudo,

ainda acredita

que um país

pode ser maior

que aqueles

que tentam dominá-lo.

Porque um dia

a história sempre chega

à porta dos poderosos.

E quando ela chegar,

não perguntará

quanto dinheiro havia.

Perguntará:

“O que vocês fizeram

com o poder

que receberam?”

E então...

não haverá gabinete,

toga, partido, banco,

fortuna ou influência

capaz de esconder

a resposta.

A história registra.

O tempo revela.

E a verdade,

quando encontra a luz,

não pede licença.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 07/09/2026


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