

MASTER, MAIS QUE VERGONHAHá dias em que a notícia não informa. Fere. Há dias em que o jornal não conta uma história. Expõe uma ferida. E há dias em que o cidadão olha para o poder e pergunta: Onde foi parar a vergonha? Que país é este onde bilhões desfilam em corredores fechados, onde o dinheiro parece conhecer atalhos que o povo desconhece, onde portas se abrem para alguns enquanto tantas outras permanecem eternamente fechadas? Master... Nome que poderia significar excelência, domínio, competência. Mas que hoje ecoa na perplexidade de uma nação que assiste, atônita, a uma teia de relações, interesses, suspeitas e poderes entrelaçados. E o povo pergunta: Quem vigia quem? Quem fiscaliza o fiscal? Quem investiga o investigador? Quem julga os que parecem tão próximos do poder? Quem protege o dinheiro público quando aqueles que deveriam protegê-lo aparecem nas margens das mesmas histórias? Não acuso. Pergunto. Não condeno. Exijo respostas. Porque numa República a dúvida também precisa ser investigada. E a transparência não pode ser favor. É obrigação. O que assusta não é apenas o tamanho dos números. É a sensação de que existem mundos que não se encontram: De um lado, o trabalhador contando moedas antes do fim do mês. Do outro, bilhões circulando entre bancos, fundos, gabinetes, escritórios e salões de influência. De um lado, a fila. Do outro, a porta lateral. De um lado, o cidadão esperando por justiça. Do outro, a justiça tentando descobrir quem realmente tem poder sobre quem. Que ironia! O dinheiro deveria servir à sociedade. Mas quando a sociedade passa a servir aos interesses do dinheiro, alguma coisa essencial se rompe. Rompe-se a confiança. Rompe-se a esperança. Rompe-se o pacto entre governantes e governados. E nasce a indignação. Uma indignação que não é de esquerda nem de direita. É de quem ainda acredita que o dinheiro público tem dono: o povo. Que o cargo público não é propriedade. Que o mandato não é herança. Que a toga não é escudo. Que o gabinete não é balcão de negócios. Que a influência não pode ser moeda. Que amizade não pode substituir a impessoalidade. Que poder sem transparência é terreno fértil para o abuso. E quando surgem tantos nomes, tantas versões, tantas conexões, tantas perguntas, o cidadão contempla o espetáculo com uma mistura de horror e tristeza. Não pelo poder. Mas pelo possível desvio do sentido do poder. Porque poder deveria significar responsabilidade. E não privilégio. Deveria significar serviço. E não vantagem. Deveria significar ética. E não esperteza. Deveria significar República. E não República de poucos. Ah, Brasil! País das contradições... Onde se pede sacrifício ao pobre enquanto alguns parecem viver acima das regras que valem para todos. Onde a lei deveria ser cega, mas o cidadão tem medo de que ela enxergue diferente dependendo de quem esteja diante dela. Isso é o que dói. Isso é o que revolta. Isso é o que causa perplexidade. Isso é o que envergonha. Não porque toda suspeita seja culpa. Mas porque toda suspeita que envolve o poder precisa de luz. Muita luz. A luz dos documentos. A luz das investigações. A luz do contraditório. A luz da Justiça. A luz da imprensa livre. A luz da sociedade. Porque a democracia não sobrevive no escuro. E quando bilhões desaparecem em labirintos de contratos, fundos, interesses e influências, não basta dizer: “Confie.” A República precisa dizer: “Veja.” Mostre. Explique. Investigue. Responsabilize, se houver crime. Absolva, se não houver. Mas não esconda. Não silencie. Não transforme o cidadão em espectador de uma peça cujo roteiro ele jamais poderá ler. Porque o maior escândalo talvez não seja apenas o dinheiro. Talvez seja a possibilidade de termos chegado a um ponto em que o poder parece esquecer para quem existe. E quando isso acontece, o silêncio deixa de ser prudência. Pode tornar-se cumplicidade. Por isso escrevo. Não para condenar pessoas. Escrevo para condenar a corrupção, o privilégio, o tráfico de influência, o desmando, a opacidade, a impunidade e a velha doença que atravessa governos, partidos, instituições e gerações: a ideia de que o poder pode tudo. Não! O poder não pode tudo. O poder pertence à República. A República pertence ao povo. E o povo... ainda está olhando. Ainda pergunta. Ainda se indigna. Ainda se envergonha. Ainda espera. E, sobretudo, ainda acredita que um país pode ser maior que aqueles que tentam dominá-lo. Porque um dia a história sempre chega à porta dos poderosos. E quando ela chegar, não perguntará quanto dinheiro havia. Perguntará: “O que vocês fizeram com o poder que receberam?” E então... não haverá gabinete, toga, partido, banco, fortuna ou influência capaz de esconder a resposta. A história registra. O tempo revela. E a verdade, quando encontra a luz, não pede licença. Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 07/09/2026
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