POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


AO CAIR DA NOITE

Salvador se despe da luz devagar,

como quem solta um véu sobre os ombros do mar,

e o sol desce atrás do Elevador,

deixando na Baía um rastro de calor.

As falésias vestem cobre, depois vinho escuro,

o vento traz cheiro de dendê maduro,

e cada barco que recolhe a vela

é um verso antigo que a tarde não revela.

Ondina acende as primeiras janelas,

o farol pisca como quem guarda estrelas,

e no Rio Vermelho, a espuma sussurra

segredos que só a maresia costura.

Mais ao norte, as dunas guardam ouro,

Guarajuba se cala em seu tesouro,

e em Imbassaí o rio abraça o mar

num encontro que a noite vem selar.

Praia do Forte adormece entre coqueiros,

o farol antigo acende os derradeiros

raios que a tartaruga, ao longe, vê

voltar à areia onde um dia nasceu.

E se o olhar segue rumo ao sertão profundo,

a Chapada Diamantina guarda um mundo:

serras que o poente pinta de granada,

cachoeiras que despencam em cascata prateada.

O Poço Encantado esconde luz azul

mesmo quando lá fora o dia é já breu,

e o Morro do Pai Inácio, imponente e quieto,

vê o sol se afogar num último decreto.

Há um silêncio bonito nesse instante —

não o silêncio vazio, mas o de um amante

que observa o mundo se colorir de fim

para nascer de novo, eterno, assim.

O tempo aqui não corre: ele balança

nas redes da tarde, na palmeira mansa,

e a noite que chega não é despedida —

é a Bahia se recolhendo pra ser revivida.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 15/09/2026


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