POETICUS ETERNUS

" Somos o que pensamos, fazemos e falamos"

Textos


MEA CULPA

Há ideias que vestimos como bandeiras,

e bandeiras que carregamos sem perceber

que, por trás de suas cores,

também se escondiam sombras.

Houve um tempo em que acreditei.

Acreditei nas palavras inflamadas,

nos discursos que prometiam o amanhã,

nas revoluções que anunciavam novos mundos,

nas mãos erguidas contra as velhas injustiças,

nos sonhos que pareciam não conhecer limites.

Eu acreditava.

E talvez fosse essa a minha maior verdade:

a vontade de acreditar

que o mundo poderia ser melhor.

Mas o tempo...

Ah, o tempo não é apenas a estrada

que nos leva para longe do que fomos.

É também o espelho que nos devolve

as imagens que não conseguimos enxergar

enquanto caminhávamos.

E quantas vezes, em nome da liberdade,

construíram-se prisões!

Quantas vezes, em nome da igualdade,

ergueram-se novos senhores!

Quantas revoluções, nascidas do grito dos oprimidos,

terminaram no silêncio imposto pelos vencedores!

Os libertadores vestiram uniformes de tiranos,

os sonhos ganharam fronteiras,

as utopias transformaram-se em ordens,

e a voz do povo, tantas vezes invocada,

foi silenciada por aqueles

que diziam falar em seu nome.

MEA CULPA.

Não por ter sonhado,

não por ter desejado outro mundo,

não por ter caminhado ao lado de esperanças

que julgava capazes de transformar a História.

Minha culpa, talvez,

tenha sido confundir caminhos com destinos,

promessas com verdades,

ideologias com a própria vida.

Foi acreditar, por vezes,

que a razão morava inteiramente de um lado

e a ignorância habitava o outro.

Foi não perceber que nenhuma bandeira,

por mais bela que seja,

merece o preço de uma consciência aprisionada.

Hoje olho para trás

e encontro o jovem que fui,

suas certezas, seus entusiasmos,

suas convicções vestidas de eternidade.

Não o condeno.

Também não o absolvo por inteiro.

Apenas o observo com os olhos

que os anos me ensinaram a abrir.

Porque amadurecer talvez seja isto:

reconhecer que podemos estar errados

sem que todos os nossos sonhos tenham sido inúteis;

mudar de opinião sem renunciar à dignidade;

despedir-nos de antigas certezas

sem abandonar a procura pela verdade.

As ideias passam.

Os regimes caem.

Os heróis revelam suas contradições.

As revoluções encontram seus limites.

E a História, essa velha senhora,

continua escrevendo nas páginas do tempo

as verdades que ontem nos escapavam.

Mas há algo que não aceito deixar para trás.

Não renego a liberdade.

Não abdico da igualdade.

Não me despeço da fraternidade.

Essas não são relíquias de uma ideologia,

nem propriedades de partidos ou governos.

São necessidades humanas,

horizontes que não pertencem a ninguém

e que, por isso mesmo,

devem pertencer a todos.

Quero a liberdade que não se transforma

no privilégio de alguns.

A igualdade que não se limita

às palavras escritas nos muros.

A fraternidade que não exige

que o outro pense como eu

para que eu o reconheça como irmão.

Não quero mais revoluções

que substituam os donos do poder

sem transformar a natureza do poder.

Quero a revolução silenciosa das consciências,

aquela que começa quando alguém duvida,

quando alguém escuta,

quando alguém reconhece o próprio erro

e não precisa inventar outro culpado

para continuar vivendo em paz consigo mesmo.

MEA CULPA.

Sim, faço minha mea culpa

diante das ideias que defendi

e que hoje contemplo sob outra luz.

Não para apagar o passado,

pois o passado também sou eu.

Não para fingir que nunca acreditei,

pois negar o que fomos

é outra maneira de mentir para nós mesmos.

Faço-a porque o pensamento não pode ser cárcere,

porque a consciência não deve ter dono,

porque nenhuma doutrina é maior

do que a vida que pretende transformar.

E se amanhã o tempo me mostrar

que ainda existem erros nas minhas certezas,

que eu tenha coragem de reconhecê-los,

humildade para rever meus passos

e liberdade para recomeçar.

Que eu nunca me torne prisioneiro

das palavras que um dia pronunciei,

nem escravo das bandeiras

que um dia ergui.

Porque não nasci para defender cegamente ideias,

mas para pensar, sentir, questionar

e, sobretudo, compreender.

Hoje, talvez eu já não acredite

em tudo aquilo em que acreditei.

Mas continuo acreditando

na possibilidade de um mundo mais justo,

na dignidade de cada ser humano,

na liberdade de pensar sem temer,

na igualdade que não humilha

e na fraternidade que não exclui.

E se algumas das minhas antigas verdades

ficaram pelo caminho,

que assim seja.

Prefiro perder uma certeza

a perder a capacidade de pensar.

Prefiro rever minhas convicções

a fechar os olhos diante da História.

Prefiro admitir que me enganei

a transformar o erro em dogma

e o dogma em prisão.

No fim, talvez seja esta

a mais difícil das revoluções:

aquela em que derrubamos, dentro de nós,

os pequenos tiranos das certezas absolutas.

E diante do homem que fui,

do homem que sou

e daquele que ainda desejo ser,

deixo estas palavras

como quem deposita uma flor

sobre as ruínas de antigas convicções:

MEA CULPA.

Pelo que não compreendi.

Pelo que defendi sem enxergar inteiramente.

Pelas verdades que julguei eternas

e que o tempo desfez diante dos meus olhos.

Mas não me arrependo de desejar

um mundo onde ninguém precise ajoelhar-se

diante de outro ser humano.

Porque posso mudar de ideias,

reconhecer meus equívocos,

abandonar antigas bandeiras

e reconstruir meus pensamentos.

Só não quero que o tempo,

ao ensinar-me a desconfiar das ideologias,

me ensine também a desconfiar da esperança.

A liberdade continua sendo meu horizonte.

A igualdade, meu compromisso.

A fraternidade, meu desejo.

E enquanto houver injustiça,

enquanto houver alguém privado de sua voz,

enquanto a dignidade humana

for menor que os interesses do poder,

continuarei acreditando

que ainda vale a pena lutar.

Não por uma ideologia que se proclame perfeita,

mas por uma humanidade

que ainda está longe de ser justa.

Porque, no crepúsculo das certezas,

quando as bandeiras já não escondem as ruínas

e o passado nos olha sem pedir licença,

resta-nos a coragem de rever o caminho

sem abandonar a estrada.

E talvez a maior prova de liberdade

seja esta:

ter a coragem de mudar de pensamento

sem mudar de lado —

o lado da humanidade.

Poeticus Eternus
Enviado por Poeticus Eternus em 27/10/2026


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras